libélula no parque nacional da malásia
Friday, September 28, 2007
Wednesday, September 12, 2007
do coração para cima
o meu pai viu o funeral do Pavarotti na televisão, incitando os demais presentes em casa a ver também.habituada à sua forma de sentir as coisas, não estranhei o ar atento, como quem procura decifrar um anagrama, à procura dos esgares de cada pessoa presente na igreja, quase sentindo como se ali estivesse.
na missa do funeral do Pavarotti, cantada, diga-se de passagem (daí o interesse particular do meu melómano progenitor), os presentes volta e meia batiam palmas prolongadamente, à espera que o artista ouvisse (era bom não era?).
o Pavarotti foi uma vez chamado ao palco cento e trinta e tal vezes depois da actuação, o que se tornou um recorde do Guiness. O Pavarotti, contou o meu pai, cantava de ouvido, não aprendeu música, mexia-se apenas do coração para cima, incluindo, note-se, todos os músculos da cara, em concentração absoluta no seu precioso instrumento (do coração para cima).
quando a sua voz já começava a ser uma sombra do que era nos seus tempos áureos, dedicou-se então a causas que não me atrevo a questionar a partir dos meus cantinhos burgueses (seja da escrivaninha limpa a óleo de cedro, seja do gabinete com net rápida) .
ao gosto das ligações improváveis entre pessoas, entre dos corações para cima, o Pavarotti É amigo do Bono. O Bono, por sua vez - à semelhança do que o cantor lírico representa para o meu pai - cataliza memórias de concertos (vistos e sobretudo não vistos).
resumindo e concluindo, assumindo uma ligação improvável entre estes factos, a voz é uma coisa importante, que no caso do Pavarotti (um brinde em memória) e do Bono (um brinde à sua vida) fica guardada em milhões de cópias.
na missa do funeral do Pavarotti, cantada, diga-se de passagem (daí o interesse particular do meu melómano progenitor), os presentes volta e meia batiam palmas prolongadamente, à espera que o artista ouvisse (era bom não era?).
o Pavarotti foi uma vez chamado ao palco cento e trinta e tal vezes depois da actuação, o que se tornou um recorde do Guiness. O Pavarotti, contou o meu pai, cantava de ouvido, não aprendeu música, mexia-se apenas do coração para cima, incluindo, note-se, todos os músculos da cara, em concentração absoluta no seu precioso instrumento (do coração para cima).
quando a sua voz já começava a ser uma sombra do que era nos seus tempos áureos, dedicou-se então a causas que não me atrevo a questionar a partir dos meus cantinhos burgueses (seja da escrivaninha limpa a óleo de cedro, seja do gabinete com net rápida) .
ao gosto das ligações improváveis entre pessoas, entre dos corações para cima, o Pavarotti É amigo do Bono. O Bono, por sua vez - à semelhança do que o cantor lírico representa para o meu pai - cataliza memórias de concertos (vistos e sobretudo não vistos).
resumindo e concluindo, assumindo uma ligação improvável entre estes factos, a voz é uma coisa importante, que no caso do Pavarotti (um brinde em memória) e do Bono (um brinde à sua vida) fica guardada em milhões de cópias.
Wednesday, September 05, 2007
tudo sobre sanguessugas

a foto não é minha porque estava a chover de mais para tirar fotos. Mas isto é uma sanguessuga pequenina, que não consegue evitar pegar-se às peles dos animais que encontra para poder crescer.
a sanguessuga tem duas bocas - uma em cada extremidade do corpo que é para quando anda (ou melhor, trepa), experimentar chupar o sítio onde se agarou a ver se tem sangue.
Se ela apanha uma bota, trepa até à meia e depois à perna.
Se a pessoa - que pensa ser precavida - leva calças, a sanguessuga trepa até encontrar pele, isto é, até à barriga, se tiver uma daquelas t-shirts de gaja que quando a gente se estica, aparece o umbigo;
até ao sovaco, se a mesma t-shirt de gaja for de alças;
até ao peito, se não levarmos sutiã porque ficou encharcado da caminhada do dia anterior;
até às costas, como já entrou na t-shirt não há nada a fazer;
até ao ninho da orelha, para gáudio dos animais da floresta que eu não vi mas que por lá andavam, pois ouviram uma nova espécie a dar rédeas às cordas vocais como quem quer assustar a menina pegajosa que acabou de achar uma mini-veia dentro da orelha.
as saguessugas, pode-se ver na net, não se devem arrancar da pele. Devem ser afastadas através de, por exemplo, a ponta de um cigarro aceso ou sal. 1. Claro que a malta nas caminhadas está mesmo a pensar levar um cigarrinho e 2. com a chuva que estava a cair era impossível fazer alguma coisa que não fosse andar para a frente para acabar com o trilho de uma vez por todas.
Thursday, July 19, 2007
Friday, July 13, 2007
a barriga da joana
a barriga da joana está enorme. quando encostei o ouvido, ouvi um rio a passar por pedrinhas. estaria a barriga a sonhar? ou a gente quando ouve uma barriga lembra-se de coisas semelhantes às que as crianças dizem quando vêem a lua?
Wednesday, June 27, 2007
o boxeur

na semana passada passou por aqui, iscte, o Wacquant. assim tratado parece ser o colega do lado, mas é professor conceituado em sociologia urbana.
no final dos anos 80 decidiu que, para estudar melhor o gueto em Chicago, se inscreveria numa academia de boxe. assim o fez e, desses anos de experiência de boxeur quase profissional resultou um excelente documento etnográfico chamado "o corpo e a alma".
na semana passada vi o magrinho Wacquant, inimaginável como boxeur, se não fossem as fotos como a que aqui trago.
terra a terra, muito acessível (não deviam ser todos assim nas universidades, recheadas como rissóis, de narizes levantados?), apresentou uma comunicação, que não pude ver, sobre a difusão do conhecimento etnográfico. Agora vou à procura da gravação, uma vez que a sua comunicação foi produto de umas notas rabiscadas na noite anterior. Pode ser que ele publique algo sobre isso.
entretato, releio artigos seus sobre o conceito de gueto. quem dá o corpo e a alma terá reflexões ajustadas.
Friday, May 18, 2007
Monday, April 23, 2007
no pacífico
é tão incerto estares em qualquer lado e no entanto era tão importante que estivesses. vou fazer de conta que atravessas o pacífico numa jangada. demoraste a partir. a âncora talvez estivesse presa. agora está uma data de gente no porto, ainda não atravessaste a linha do horizonte, as pessoas não se vão embora enquanto não atravessares. como não levas remos vens e vais ao sabor das marés, e olhas também o cais. o céu e o mar teimam em rimar com os teus olhos e o sol com o teu cabelo. é claro que vais de azul! no porto formamos uma massa de gente desfocada, acenando ou deixando os braços ao lado do corpo.
Wednesday, March 28, 2007
líderes que chucham no dedo (mesmo)
cantina: 13:00h. há um grupo de raparigas à minha frente. uma delas (a) argumenta com outra (b). c, d e e observam e aprovam os argumentos de a. a é bonita, gesticula largamente e faz caretas agressivas. é claramente a chefe daquele grupo. em breve, b desiste e começa agora a sorrir de forma agonística [sinal de submissão para "acalmar as hostes" posterior à agressão doutro].
noutra fileira de mesas deixei por momentos de observar este espectáculo, para me concentrar no empadão de arroz com (poucos) legumes. mas volto a olhar:
agora a chucha no dedo (!!!!!!!) e faz-se festas em roda do nariz com a mesma mão, como uma criança que vai adormecer, e que não sabe que os seus gestos inatos um dia desaparecerão. depois da refeição, a está simplesmente com sono, e repete o seu gesto inesperado (inúmeras vezes, mesmo depois de eu me beliscar e abrir e fechar os olhos com força) com a mesma segurança de quem fuma um cigarro. b, c, d e e agem como quem já conhece este gesto. cada uma delas tem gestos de sono aceites (bocejam, enrolam caracois no cabelo, esfregam os olhos, sugerem um café). só a líder pode chuchar no dedo.
noutra fileira de mesas deixei por momentos de observar este espectáculo, para me concentrar no empadão de arroz com (poucos) legumes. mas volto a olhar:
agora a chucha no dedo (!!!!!!!) e faz-se festas em roda do nariz com a mesma mão, como uma criança que vai adormecer, e que não sabe que os seus gestos inatos um dia desaparecerão. depois da refeição, a está simplesmente com sono, e repete o seu gesto inesperado (inúmeras vezes, mesmo depois de eu me beliscar e abrir e fechar os olhos com força) com a mesma segurança de quem fuma um cigarro. b, c, d e e agem como quem já conhece este gesto. cada uma delas tem gestos de sono aceites (bocejam, enrolam caracois no cabelo, esfregam os olhos, sugerem um café). só a líder pode chuchar no dedo.
Thursday, March 15, 2007
Era uma vez uma velha muito velha
Pensava que estas pessoas só eram verdadeiras nos contos fantásticos. Era uma velha muito velha a andar muito depressa. Com umas olheiras muito grandes e covadas, como se de cada lado estivesse pendurado um quilo durante muito tempo. E tinha também os beiços caídos, muito caídos, como as olheiras. A sua expressão parecia ter parado num tempo em que ficou triste, muitos anos atrás. Passou por mim na avenida de Berna. Talvez fosse a caminho da ilustração de um livro.
Friday, March 09, 2007
disfarces
Como vivem os que andam sempre disfarçados?
Podemos andar sempre disfarçados?
Como vivem as pessoas com menos disfarces?
Podemos andar sempre disfarçados?
Como vivem as pessoas com menos disfarces?
Friday, February 09, 2007
Em homenagem ao O'Neill, tímido desenfreado, e para os amigos, em homenagem também
AMIGO
Mal nos conhecemos
Inaugurámos a palavra amigo!
"Amigo" é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo,
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece,
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!
"Amigo" (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
"Amigo" é o contrário de inimigo!
"Amigo" é o erro corrigido
Não o erro perseguido, explorado,
É a verdade partilhada, praticada!
"Amigo" é a solidão derrotada!
"Amigo" é uma grande tarefa,
É um trabalho sem fim,
Um espaço sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
"Amigo" vai ser, é já uma grande festa!
Alexandre O'Neill, No Reino da Dinamarca
Mal nos conhecemos
Inaugurámos a palavra amigo!
"Amigo" é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo,
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece,
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!
"Amigo" (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
"Amigo" é o contrário de inimigo!
"Amigo" é o erro corrigido
Não o erro perseguido, explorado,
É a verdade partilhada, praticada!
"Amigo" é a solidão derrotada!
"Amigo" é uma grande tarefa,
É um trabalho sem fim,
Um espaço sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
"Amigo" vai ser, é já uma grande festa!
Alexandre O'Neill, No Reino da Dinamarca
Wednesday, February 07, 2007
SIM
Quando houver um referendo sobre quando começa a vida ou sobre se somos a favor do aborto ou não, logo haverá outra discussão. Como agora o referendo é sobre a despenalização das mulheres que abortam até às 10 semanas, para mim é demasiado evidente.
Porquê?
1. porque sou pela maternidade (e paternidade) responsáveis
2.porque actualmente há clínicas a fechar as suas portas às 19h e a fazer abortos em horário pós-laboral, sem pagar impostos e a receber balúrdios
3. porque a mulher que aborta num estabelecimento legal de saúde tem de certeza mais acesso ao planeamento familiar do que quem aborta clandestinamente
4.porque era escusado tanto aborto cirúrgico. se as mulheres se sentissem mais à vontade para falar com um médico mais cedo...
5. porque actualmente, quando uma mulher aborta por razões naturais, não tem acesso a todos os medicamentos exsitentes, que teria se o aborto estivesse legalizado. e ainda por cima, muitas dessas mulheres são tratadas com desfiança ao chegar ao hospital com sequelas. nos países onde o aborto está legalizado, estã disponíveis determinados princípios químicos que em Portugal não existem devido à criminalização do aborto (a pílula abortiva, segura até às 7 semanas e sem sequelas como aqueles comprimidos para o estômago, o Citotec)
mais razões:
razão cristã: porque não sou ninguém para julgar a outra
razão egoísta: porque pode acontecer-me a mim e não quero que haja a possibilidade de haver um parvalhão qualquer que me faça ir fazer um exame gineclógico à força, depois de abortar, por achar que eu terei feito um crime (é que apesar de não haver mulheres que abortaram na prisão, há dezenas que foram sujeitas a isto antes da "abslvição" no tribunal).
e vou votar porquê?
1. porque sou teimosa em acreditar na democracia e gosto mesmo de votar, desde que tenho direito. imagino sempre quando as mulheres não tinham direito a votar. se vivesse nesse tempo, seria sufragista de certeza.
2. porque participei na recolha de assinaturas para a realização deste segundo referendo. foi uma experiência extraordinária falar com tanta gente na rua, e perceber as diversas vozes e as várias opiniões. e que estranhei ao princípio que há mais gente jovem do que velha, contra.
3. porque gostava que ninguém tivesse de abortar, mas já que acontece, que as mulheres que o fazem, que tenham condições iguais para todas à partida.
Monday, February 05, 2007
optimismo
sempre que vejo uma gaivota em entre campos não sei se hei-de pensar que anda perdida ou que anda em busca. de qualquer forma, é uma esperança de mar. aberto, azul, ruidoso, radioso.
Monday, January 29, 2007
Sari

O sari. O sari é a roupa mais democrática que conheço relativamente à beleza das mulheres. O sari fica bem a todas as mulheres, magras, gordas, altas, baixas, cuzudas e mamalhudas. Dá uma graça especial ao andar. O sari são seis metros de tecido fluído, às vezes algodão, às vezes seda, às vezes acrílico. As modas renovam-se de seis em seis meses. As solteiras não usam praticamente sari. As casadas usam saris coloridos, as viúvas usam saris de cores claras. Ficam sempre graciosas. Velhas, novas, mães, tias, avós, primas e cunhadas. De cabelo curto ou comprido; de narizes grandes ou discretos; de olhos claros ou escuros; com ou sem joanetes; com ou sem pneus; pernas curtas ou de girafa, e por aí fora.
Estender um sari ao sol é como estender um lençol com mais do dobro do comprimento de um lençol normal. E seca num instante. Tem de se ter cuidado para não bater nas janelas do vizinho de baixo, a menos que se queira dizer-lhe alguma coisa. O sari não envelhece como as mulheres que o vestem. Passam as modas e podemos, com ele, fazer capas para almofadas, colchas, estojos, e por aí fora.
O sari, por outro lado, desliza. É sensual. E por aí fora.
Tuesday, January 09, 2007
Friday, January 05, 2007
impressões do ski em catadupa: desafio ultrapassado

os skis são pesados, as botas fazem mal às varizes, os mecanismos de acesso às pistas são terroríficos, a aprendizagem (minha) foi lenta, aos poucos comecei a gostar, depois de muita birra e dores nas pernas e medo das descidas.
e pensar volta e meia que o preço de uma semana dava para estar uma semana em cabo-verde, e que a paisagem dos pirinéus dá vontade de tirar os skis e pôr-me a passear.
talvez volte, talvez volte, vencido o desafio de ultrapassar o medo.
coisas fixes: rir a bandeiras despregadas das minhas próprias quedas; contabilização das nódoas negras; pequenos-almoços enooormes, banhos de imersão todos os dias; encontrar as semelhanças entre a estância de ski e as praias do jet7 e, last but not least, no 5º dia de formação já descia a dizer yuppiiii e não a dizer aaaaahhhhhh
obrigada a quem me levou lá. foi pena não ter nevado
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