Monday, January 29, 2007

Sari


O sari. O sari é a roupa mais democrática que conheço relativamente à beleza das mulheres. O sari fica bem a todas as mulheres, magras, gordas, altas, baixas, cuzudas e mamalhudas. Dá uma graça especial ao andar. O sari são seis metros de tecido fluído, às vezes algodão, às vezes seda, às vezes acrílico. As modas renovam-se de seis em seis meses. As solteiras não usam praticamente sari. As casadas usam saris coloridos, as viúvas usam saris de cores claras. Ficam sempre graciosas. Velhas, novas, mães, tias, avós, primas e cunhadas. De cabelo curto ou comprido; de narizes grandes ou discretos; de olhos claros ou escuros; com ou sem joanetes; com ou sem pneus; pernas curtas ou de girafa, e por aí fora.
Estender um sari ao sol é como estender um lençol com mais do dobro do comprimento de um lençol normal. E seca num instante. Tem de se ter cuidado para não bater nas janelas do vizinho de baixo, a menos que se queira dizer-lhe alguma coisa. O sari não envelhece como as mulheres que o vestem. Passam as modas e podemos, com ele, fazer capas para almofadas, colchas, estojos, e por aí fora.
O sari, por outro lado, desliza. É sensual. E por aí fora.

Tuesday, January 09, 2007

Friday, January 05, 2007

impressões do ski em catadupa: desafio ultrapassado


os skis são pesados, as botas fazem mal às varizes, os mecanismos de acesso às pistas são terroríficos, a aprendizagem (minha) foi lenta, aos poucos comecei a gostar, depois de muita birra e dores nas pernas e medo das descidas.
e pensar volta e meia que o preço de uma semana dava para estar uma semana em cabo-verde, e que a paisagem dos pirinéus dá vontade de tirar os skis e pôr-me a passear.

talvez volte, talvez volte, vencido o desafio de ultrapassar o medo.

coisas fixes: rir a bandeiras despregadas das minhas próprias quedas; contabilização das nódoas negras; pequenos-almoços enooormes, banhos de imersão todos os dias; encontrar as semelhanças entre a estância de ski e as praias do jet7 e, last but not least, no 5º dia de formação já descia a dizer yuppiiii e não a dizer aaaaahhhhhh

obrigada a quem me levou lá. foi pena não ter nevado

Wednesday, December 20, 2006

segredos

há dias deparei-me com informações que não posso divulgar. foram-me reveladas em entrevista, já em off por casualidade(?), e tinham a ver com pequenos poderes que se relacionam com pouca gente, mas cada pessoa é uma pessoa na minha modesta opinião, e as opções tomadas podem transformar algumas vidas para sempre (ou mantê-las irremediavelmente na mesma).

pronto. e agora que já revelei o mais importante do segredo - a sua substância e não a sua forma (essa é que não dá mesmo), junto-me a uma reflexão sobre os segredos que ouvi ontem pela boca da Pilar (que antes de ser mulher do Saramago já era uma grande mulher, uma grande pessoa, whatever) e que tem a ver com os segredos.
a avó dela dizia, quando uma mulher perde a honra, ganha liberdade. isto era muito à frente para a avó dela dizer, mas pelos vistos disse, e parece-me bem. e isto tem a ver com os segredos, porque os segredos castram a possibilidade de nos livrarmos do que eles ocultam, ou de superarmos o problema que o segredo guarda.

no contexto em que falava, Pilar relacionou com os segredos/não segredos do Volver.
mas no contexto destes dias, apetece-me dizer que enquanto há segredo do Pai Natal para as crianças, vamos atrasando a sua descoberta da vida. de qualquer maneira, mudando de tema, se não fossem as crianças este Natal (e os outros, na verdade) não tinha graça nenhuma.

Wednesday, December 06, 2006

144 para quem tem medo de estar em casa

Cada um@ tem o seu medo: medo dos outros automobilistas; medo de atropelar alguém; medo da polícia; medo dos ladrões; medo dos terramotos; medo dos incêndios; medo dos cães; medo das aranhas; medos sociais como estar no meio de demasiada gente; medo de encarar determinadas pessoas; medo de não ter dinheiro para pagar as contas; medo de engravidar; medo de adoecer; medo da morte; medo de levar um tiro;
mas... medo de estar em casa?

isto é a propósito - tardio - do dia 25 de Novembro, que é dia nacional de luta contra a violência e porque todo/as, quase de certeza, conhecemos alguém, homem ou mulher, vítima de violência doméstica (estima-se que 1/3 das mulheres são vítimas de violência doméstica e não se sabe que percentagem de homens serão vítimas do mesmo)

Monday, December 04, 2006

não há nada como a banda


A banda
Chico Buarque 1966

Estava à toa na vida
O meu amor me chamou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor

A minha gente sofrida
Despediu-se da dor
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor

O homem sério que contava dinheiro parou
O faroleiro que contava vantagem parou
A namorada que contava as estrelas parou
Pra ver, ouvir e dar passagem

A moça triste que vivia calada sorriu
A rosa triste que vivia fechada se abriu
E a meninada toda se assanhou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor

O velho fraco se esqueceu do cansaço e pensou
Que ainda era moço pra sair no terraço e dançou
A moça feia debruçou na janela
Pensando que a banda tocava pra ela

A marcha alegre se espalhou na avenida e insistiu
A lua cheia que vivia escondida surgiu
Minha cidade toda se enfeitou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor

Mas para meu desencanto
O que era doce acabou
Tudo tomou seu lugar
Depois que a banda passou

E cada qual no seu canto
Em cada canto uma dor
Depois da banda passar
Cantando coisas de amor

Monday, November 27, 2006

Lençóis brancos

Gostava de te dizer as palavras certas
(como se houvesse uma única a fazer sentido agora)
Gostava de te deixar em paz
Sem que ficasses só
Gostava de to trazer de volta
Gostava tanto!

Vento, vento, mais vento
E chuva, mais chuva.
Nem o vento leva daqui o pranto
Nem a chuva lava-te aqui a cara.
Dizem-te que o tempo secará as lágrimas
(como se elas estivessem penduradas na corda da roupa!)
Mentem-te!
Nem o tempo, nem o vento.
Mas talvez cada dia procurar
Algo bom do passado
E algo bom no futuro.
E talvez cada dia com gestos iguais…

(Se suspirares entretanto, é a saudade;
Se soluçares, é do ar que retiveste por tanto amar.
Não te rales com suspiros e soluços
Olha os fantasmas com espanto:
Eles poderão trazer-te paz.
Basta sorrir-lhes. Depois de lhes falares
Sem medo, eles voltarão à sua vida
Como lençóis brancos a esvoaçar)

Wednesday, November 22, 2006

a inutilidade da antecipação

ontem, no telejornal havia uma reportagem sobre a ansiedade. não gostei nada, mas ainda assim fiquei a pensar. sempre quis controlar tudo, não de uma forma objectiva, mas por via de superstições meio veladas. antecipar para que não acontecesse ou pelo menos para estar preparada para todas as situações. afinal não resulta (como percebi depois de atender o telefone há 3 semanas atrás). a antecipação é a arrogância de achar que se possui uma qualquer força divina e a sua inutilidade ainda não tem alternativa.

Tuesday, November 14, 2006

feia e mentirosa

a morte, além de ser uma palavra feia, engana-nos. veste-se de surpresa, para dar um ar supersticioso, ou veste-se de lentidão, para dar um ar antigo. a morte é feia e mentirosa. não tem graça absolutamente nenhuma. as suas constantes surpresas são piadas de mau gosto.
a morte devia estar calada quando as pessoas realizam sonhos. respeitar o sonho era mínimo que a morte podia fazer.
a morte mente porque parece querer ensinar alguma coisa, tipo 'dar mais atenção às pequenas coisas da vida', mas no fundo não ensina nada.
a morte gera rancor, descrença, raiva. é preciso um esforço enorme para transformar a raiva, a descrença e o rancor em coisas menos más. e esse esforço enorme envelhece. a morte é cabrona de merda

Wednesday, November 08, 2006

da roca a são vicente

Foram daquele tipo de sucessão de dias que dá vontade de dizer foram os melhores dias da minha vida. Felizmente o hábito de desfrutar da vida e dos espaços que podemos conhecer faz-me ter várias sucessões de dias melhores da vida. Há outros. Apetece-me recordar estes. Foram os primeiros dias de Setembro de 1993. Organizou-se uma actividade de escoteiros para unir, pedalando, o Cabo da Roca ao Cabo de São Vicente. Calcorreámos a costa alentejana, mais perto do mar, na areia molhada, ou em cima das arribas, perto dos chorões e do zimbro. Custava pedalar cerca de 60 kms por dia. Esperávamos pelas estradas ladeadas de eucaliptos para pôr os pneus a render. Levantávamo-nos tarde. Comíamos cada um meio pão alentejano e meio litro de leite. Manteiga ou flora, marmelada. Almoçávamos às 5 da tarde, pelo que pedalávamos inconscientemente na hora do calor. Depois jantávamos a maior parte das vezes já depois da meia noite. Uma vez, ao pé da Zambujeira do Mar, comemos soja com esparguete. Tínhamos andado de porta em porta a pedir condimentos para temperar a insípida soja e esperámos até tarde para cozinhá-la. Acampámos no pinhal, dormindo em estrela à volta da comida que, depois de feita, estava uma verdadeira merda. De manhã, só o Bruno comeu um pouco dos muitos restos do jantar.
Lembro-me dos rapazes hesitarem para ir ao banho, nas praias mais lindas da costa alentejana. As raparigas, quais lontras, aproveitávamos logo a deixa do belo: as conchas, o sol a pôr-se, os cristais de areia ao luar. Eles também eram sensíveis a isso, mas fingiam que não. ou disfarçavam melhor.
Cantávamos o que nos vinha à cabeça. Íamos a ritmos diferentes. Quando os
últimos chegavam ao pé dos primeiros, a impaciência fazia retomar de seguida os pedais. Ficávamos amuados, a brincar. Passava rápido.
Ao chegar a São Vicente, havia uma estrada de terra batida, aos altos e baixos muito acentuados, como a vida. O Bruno ganhou um último impulso e pedalou mais depressa, quase saltando as lombas. São estas pequenas coisas que vão começando a fazer-me voltar a sorrir.

"o bruno foi viver para as montanhas"

como ainda não consigo dizer nada de jeito...

Tuesday, October 24, 2006

Cartas a um ditador


do programa do doc Lisboa:
"O documentário de Inês de Medeiros visita memórias dos anos do salazarismo, dando a palavra a mulheres de diferentes extractos sociais que, com maior ou menor receptividade, tinham sido contactadas para manifestar o seu apoio a Salazar, a pretexto da primeira crise que abalou a ditadura, a campanha do General Humberto Delgado."

o documentário de Inês e Medeiros foi exibido publicamente ontem pela primeira vez no grande auditório da Culturgest, e espero que seja rapidamente passado para o programa do cart geral. entretanto, até dia 28, pode ser visto no Doc Lisboa, sob requisição.
aprendemos um pouco mais sobre um tempo muitas vezes incompreensível para quem nasceu depois, e há temas muito actuais, como a liberdade da mulher... mas só vendo

Monday, October 16, 2006

como os cágados e os ursos




castanhas, maçãs assadas, nozes. botas para a chuva, estendal dentro de casa, chapéu de chuva do chinês. (isto como postulados cosy para o outono instalado)
mas depois há também o metro parado, o trânsito atulhado, os buracos da estrada que molham as pernas dos teimosos peões, mais buzinas, mais alarmes (felizmente há as goteiras como som alternativo, e os saltos altos no metro)
é que começam as coisas a mergulhar na terra, e a ficar lá até depois do frio passar, mas a gente não mergulha na cama, a hibernar, como os cágados e os ursos. porquê? em vez disso tomamos mais café e disfarçamos mais as olheiras.
só mais um postulado cosy: mais cinema - no ecrã grande e no pequeno. o cinema, como a ginástica as drogas e o alcool, leva-nos para longe da vida de todos os dias, é só escolher um destino entre os locais dos enredos. ultimamente escolhi Paris e Havana (mas não aconselho a Cidade Perdida, é bué reaccionário).
resumindo, um episódio da national geographic e o eládio climaco a estender as palavras da locução, num domingo de chuva, a comer maças assadas

Friday, October 13, 2006

quase 100 mil pessoas nas ruas


entre 70 e 100 mil pessoas na manif de ontem pelos direitos dos trabalhadores.
se calhar porque só quem tem alguns direitos - cada vez mais ameaçados - é que ainda (e ainda bem!), consegue lutar.
Viva a não resignação!!
(parafraseando a Sophia) Porque os outros calam mas vós não!

Thursday, September 21, 2006

Wednesday, September 20, 2006

os velhos

Os velhos trazem uma vida toda atrás deles
por isso é que lhes custa andar.
nós, os novos, devíamos querer ser velhos
porque os velhos já aprenderam muito
Os velhos às vezes têm o pensamento confuso.
é natural: já pensaram demasiado na vida.

Os velhos são como as crianças
e não é só por causa das fraldas:
os velhos páram no meio da rua
para olhar para qualquer coisa;
dizem coisas inteligentes
sem ninguém estar à espera
(ou coisas poéticas,
ou coisas consideradas inapropriadas);
admiram-se facilmente;
são gulosos e generosos;
gostam mais dos animais;
e, volta e meia, caem.

Se nos dedicarmos a ouvir os velhos
sem pensar constantemente
quando é que ele se cala ou as coisas que temos para fazer,
ouvimos coisas mais novas do que nós
(ou novas para nós)
e revelam segredos.

Monday, September 04, 2006

alegrias domésticas

uma casa nova leva-nos a desvarios e a sentimentos de satisfação produzidos por coisas que normalmente acharíamos espatafúrdias.
se não, como ficar tão contente porque já se tem uma varinha mágica, ou triste porque se tem de trocar a aparelhagem nova por outra porque a rádio não funciona?

uma das maiores alegrias domésticas da actualidade é, depois de trazer os móveis Ikea para casa, arrumadinhos nos cartões, decobrir que não faltam peças para bem-montar os móveis e, mais do que isso, conseguir montá-los sem grandes dificuldades.

uma outra alegria doméstica é já ter uma escumadeira, um saca-rolhas, um ralador.

as listas do que falta e do que já há parecem intermináveis, como se encher uma casa não fosse uma das coisas mais rápidas do mundo.

Thursday, August 03, 2006

Bergen


Bergen, na costa ocidental da noruega, foi a primeira capital do pais. cheia de cor e surpreeendentemente solarenga (esta 3/4 do ano a chover aqui), mergulhar no mar do norte e bom!
As sandes de camarao, frutos do mar, salmao fumado e caviar sao um must, para degustar junto ao mercado a olhar para os fiords.
E depois, na pousada mais barata da cidade, conhecer uma pequena biork catalä a cantar venus as a boy ao piano, tornou a curta visita a esta cidade ainda melhor.

Thursday, July 20, 2006

a linha continua


comboios a apitar, horários, tabelas, estações. moedas diferentes, comidas e línguas diferentes.
gente diferente, noites e dias diferentes. e sobretudo paisagens diferentes, muitas paisagens, e a promessa de uns bungalowzinhos no meio das florestas.
como estas férias vão ser mais ao sabor dos desejos do que das tabelas de horarios, só sei que vou para norte, muito a norte, e que vou brincar, nas noites quase brancas, com os longos momentos entre o fechar dos olhos e o sono proundo.